Medicamentos · 4 min de leitura
Monjauro e a perda de massa muscular: o que acontece no seu corpo
O Monjauro (tirzepatida) e os demais análogos de incretinas revolucionaram o tratamento da obesidade. Mas o emagrecimento que eles produzem não é seletivo: parte expressiva do peso perdido é massa magra, não apenas gordura. Entender a bioquÃmica por trás disso é o que separa um resultado saudável de um prejuÃzo metabólico de longo prazo.
Como a molécula atua
A tirzepatida é um agonista duplo: ativa ao mesmo tempo os receptores de GIP e de GLP-1, as duas principais incretinas liberadas pelo intestino após a refeição. Com meia-vida prolongada, o fármaco age em três frentes: retarda o esvaziamento gástrico, potencializa a secreção de insulina dependente de glicose e â o efeito central â ativa receptores no hipotálamo, especialmente no núcleo arqueado, suprimindo o apetite de forma intensa.
O resultado clÃnico é uma queda drástica e involuntária da ingestão calórica. E é justamente aà que mora o problema para a composição corporal.
Por que o músculo some junto
Quando o déficit energético é muito agressivo e a ingestão proteica despenca, o corpo não distingue "perder gordura" de "perder tecido". Em um balanço nitrogenado negativo, a proteólise muscular se acelera: o músculo é catabolizado para fornecer aminoácidos para a gliconeogênese e para a manutenção de tecidos vitais.
- A sÃntese proteica muscular cai porque falta substrato (aminoácidos, sobretudo leucina) e estÃmulo da via mTOR;
- A saciedade extrema reduz naturalmente o consumo de carnes, ovos e laticÃnios â as principais fontes proteicas;
- Sem treino de força associado, não há sinal anabólico para preservar a massa.
Estudos com essa classe de medicamentos mostram que cerca de 30 a 40% do peso perdido pode ser massa livre de gordura quando não há intervenção nutricional e de treino. Perder músculo significa reduzir a taxa metabólica de repouso, piorar a sensibilidade à insulina a longo prazo e aumentar o risco do efeito sanfona quando o medicamento é suspenso.
Por que o nutricionista é indispensável durante o uso
O medicamento corta o apetite, mas não decide o que entra no prato. Com uma janela de ingestão tão reduzida, cada refeição precisa ser densa em nutrientes e calibrada para proteger o músculo. O papel do acompanhamento é:
- Garantir aporte proteico adequado (frequentemente 1,6 a 2,2 g por kg), mesmo com pouca fome, distribuÃdo ao longo do dia;
- Preservar micronutrientes e fibras que a baixa ingestão tende a sacrificar;
- Sincronizar a estratégia com o treino de resistência, o único estÃmulo capaz de sinalizar preservação de massa;
- Ajustar a estratégia para a fase de manutenção, evitando o reganho quando o fármaco for reduzido.
Medicamento sem estratégia nutricional emagrece a balança, mas pode empobrecer o corpo. O objetivo de um acompanhamento sério é que você perca gordura â e mantenha a massa que sustenta seu metabolismo, sua força e sua saúde.